O efeito das sanções no dia a dia
13/12/12 15:09Está cada vez mais difícil encontrar água com gás Perrier, que eu adoro tomar ao escrever. Os mercadinhos do bairro onde moro não estão mais recebendo cereais importados. Há tempos não encontro molho de tomate Barilla. Dia desses paguei o equivalente a mais de R$ 20 por quatro lâminas de barbear (sei que o preço no Brasil é ainda mais alto, mas, no contexto econômico iraniano, esse valor é um ultraje). A antena parabólica do meu prédio já não pega a Press TV, o canal noticioso iraniano internacional em inglês. A TV estatal síria também está fora do ar. Meu salário em moeda estrangeira vive na gangorra devido às oscilações do rial, divisa nacional. Há meses em que fico até 20% mais rico, outros em que volto ao padrão médio. Aliás, preciso sair do Irã para receber o saldo já que tornou-se impossível fazer remessas a bancos iranianos.
Tudo isso é efeito direto das sanções comerciais e financeiras impostas ao Irã. Mas o impacto no meu dia a dia é mínimo comparado ao que sofre a população do país.
Os iranianos viram seu poder de compra despencar um terço em um ano, já que a inflação conjugada à desvalorização da moeda não foi acompanhada de um aumento nos salários. Preços de alguns alimentos dobraram no intervalo de semanas. Produtos importados, até mesmo desodorantes, tornaram-se inacessíveis para muita gente, assim como viagens internacionais. Ainda por causa do câmbio, pais que não conseguem mais sustentar filhos estudantes no exterior estão pedindo que voltem, interrompendo muitas trajetórias acadêmicas bem sucedidas. Está cada vez mais difícil para os iranianos conseguir vistos para ir a países ocidentais.
Os empresários também estão duramente afetados, já que as contas externas são negociadas em dólar ou euro. A isso somam-se um comércio deprimido e transações em queda. Demissões proliferam, algumas em massa, como no setor industrial. O desemprego está em ao menos 25%.
Nem os ricos escapam. Um amigo playboy abastado decidiu largar tudo para ir morar em Dubai. Lojas de alto luxo em Teerã andam desesperadamente vazias.

Comerciante conta cédulas da volátil moeda iraniana em mercado da capital Teerã (Raheb Homavandi/Reuters)
O governo também sofre, já que as punições dificultam a venda de petróleo e barram qualquer negócio com o Banco Central, receptor do dinheiro das exportações e epicentro da economia. Com entrada de capitais em queda, o Estado teve que cortar subsídios a transportes e serviços, agravando ainda mais a disparada da inflação. Analistas dizem que os cerca de US$ 27 mensais em cash que o regime passou a fornecer em troca a cada adulto não compensam a perda.
Por causa das sanções, o Irã não consegue modernizar e aumentar sua capacidade de refinar o petróleo que produz e acaba obrigado a importar gasolina. Mas como o preço do combustível importado disparou nos últimos anos, muita gente passou a recorrer à refinarias artesanais que produzem uma gasolina de péssima qualidade. O resultado é a constante nuvem de poluição que envolve as grandes cidades iranianas. Dia desses a prefeitura de Teerã teve que decretar feriado por causa da toxicidade no ar.
Há também riscos à própria vida dos cidadãos. Alguns remédios e equipamentos que só existem no exterior não estão mais chegando aos hospitais, e já houve mortes diretamente causadas por essa escassez. Já as empresas áreas, impedidas de renovar a velha frota e obrigadas a comprar peças de reposição no mercado negro, estão entre as mais perigosas do mundo.
Há mais de três décadas que os iranianos vivem sob sanções econômicas.
Primeiro foram os EUA que impuseram punições comerciais em represália à tomada de reféns da embaixada americana em Teerã em 1979 (tema hoje na moda por causa do filme “Argo”, em cartaz no Brasil). Os dois países estão totalmente rompidos desde então. Washington apertou o cerco ao Irã nos anos 80 para favorecer a ditadura secular do iraquiano Saddam Hussein em sua guerra contra o rival persa liderado pelo aiatolá Khomeini. Mesmo após o fim da guerra, a Casa Branca continuou intensificando as medidas, inclusive sob Bill Clinton. Nos anos 2000 estourou a crise pelo programa nuclear iraniano, e os EUA não só aumentaram as sanções como pressionaram aliados europeus e a ONU a também adotar medidas para prejudicar o Irã.
Até o ano passado o cerco mais atrapalhava do que doía, e muitos ocidentais ainda faziam bons negócios com a República Islâmica. Aí veio 2012, com uma nova leva de sanções que deixou o país de joelhos. As medidas atingiram a espinha dorsal da economia iraniana ao impor o já mencionado embargo europeu ao petróleo iraniano e ao Banco Central. Para piorar, o Irã foi banido do Swift, a rede que conecta bancos no mundo inteiro. Isso significa principalmente uma queda brutal na entrada de dólares e euros no país.
Novas sanções visam até mesmo barrar sinais de satélite usados por emissoras do Irã e aliados. Sem falar no risco de ser atacado por Israel e/ou EUA. Muitos iranianos culpam o regime, muitos outros dizem que é o Ocidente quem prejudica suas vidas.
Então por que o Irã não cede às exigências para suspender seu programa nuclear, que motivou as piores pressões?
O país persa diz que se trata de uma questão de legalidade internacional. Teerã argumenta que sua condição de membro signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) lhe dá pleno direito de enriquecer urânio para produzir medicamentos e energia elétrica, desde que se submeta às inspeções nucleares da ONU. Boa parte do problema gira em torno da interpretação do que é definido pelas convenções internacionais.
Se por um lado o Ocidente e Israel alegam ter razões de sobra para não confiar no Irã, como o apoio a grupos armados e a retórica hostil incendiária, Teerã também aponta para os precedentes históricos para mostrar que os inimigos sempre jogaram sujo. A lista dos traumas iranianos é grande: golpe da CIA contra o premiê nacionalista Mossadegh em 1953; apoio à ditadura do xá nos 60 e 70; apoio ao Iraque quando Saddam Hussein atacou o Irã nos anos 80, inclusive com armas químicas; míssil lançado contra um avião da Iran Air que matou 290 pessoas em 1988; vista grossa para os assassinatos de cientistas nucleares nos últimos anos e por aí vai.
O governo iraniano desconfia que, no fundo, o Ocidente não quer negociar, mas, sim, derrubar o regime islâmico que se opõe à sua agenda estratégica regional. Na lógica de Teerã, qualquer concessão pode ser um passo rumo à capitulação. Há claros sinais de que o regime iraniano está dividido entre, de um lado, os que acham que a República Islâmica deve adotar uma atitude pragmática e fazer concessões em nome da autosobrevivência e, do outro, aqueles para quem o regime ideológico se sustenta justamente pela resistência às pressões.
Fala-se em um novo e decisivo ciclo de conversas, desta vez diretamente entre Teerã e Washington para resolver o impasse. A reeleição de Barack Obama tornaria tudo mais fácil, segundo a visão otimista. A versão oposta diz que nem a melhor das intenções seria suficiente para levantar as sanções americanas já que isso depende da aprovação do Congresso, que é amplamente pró-Israel e não quer saber de aliviar a pressão contra Teerã. Reviravoltas inesperadas são sempre possíveis, mas por enquanto a situação permanece ruim para todo mundo. Principalmente para os iranianos.
Samy, preciso de uma ajuda!!! esta notícia é verídica ou fake?: “Jovens gays enforcados no Irã em 2005.Um dos jovens tinha 18 anos e ou outro era menor de idade. Os dois foram enforcados na terça-feira, 19/07/2005, na Praça da Justiça da cidade de Mashhad, nordeste do Irã.” – realmente isto aconteceu, ou acontece???? vejo esta notícia no Facebook…. e não consigo acreditar, pf me ajude…. bjos e obrigada pela ajuda!!!
Essa história é amplamente conhecida, Kalime. O homosexualismo, ou mais precisamente a sodomia, é passível de pena de morte no Irã. Mas como a condenação só pode ser decretada após o testemunho concomitante de quatro pessoas, o que é difícil de conseguir, a pena é raramente aplicada por essa acusação. Mas grupos de defesa dos direitos humanos dizem que as autoridades iranianas usam a acusação de estupro para justificar algumas execuções de gays.
Caro Samy, parabenizo-o pelo seu blog e aos participantes dele pelos comentários, posso estar concordadando ou discordando, mas estou sempre aprendendo, não fico supreeendido pelas sanções ou o isolamento do “ocidente” ao Irã e ao veu que o ocidente coloca nos paises muculmanos “amigos”.
Na história da humanidade sempre temos a repetição dos eventos sociais e politicos, afinal quem não aceitava o Império Romano era exterminado ou segregrado, o dominio social era exercido pela força bélica e posteriomente encontramos o dominio ideológico, comunismo ou capitalismo, agora o “integração mundial” é dada pela economia ou interesses economicos.
Não podemos achar estranho estas sanções, afinal um pais que não aceita a “americanização” ou os conceitos sociais e politicos do ocidente tem que ser punido.
Devemos sempre entender que a cultura social do Irã é totalmente diferente da nossa, com conceitos antagonicos ao nossa sociedade, para nós paradigmas autoritários, mas pergunto a voce a população aceita estes principios autoritários??? ou é uma imposição do estado ao povo???
Mylton, é difícil responder sua pergunta. Segundo algumas pessoas, os iranianos e demais povos do Oriente Médio historicamente aspiram a ter governos fortes. Por outro lado, é de se imaginar que todo mundo gosta e precisa de liberdade.
Ótima e esclarecedora análise Samy! Fica evidente que a situação política do Irã não pode ser resumida apenas em radicalismo islâmico de um lado e ódio aos E.U.A de outro. A coisa é não é tão simplista assim. Me parece que o Irã tenta encontrar um lugar na geopolítica global, um lugar “exclusivamente seu”, fora da esfera de influências do Ocidente (leia-se EUA. Mas me parece que a lógica global é: ou você é contra ou a favor do Ocidente. Quem é contra os valores do Ocidente (leia-se democracia e estado laico) paga seu preço e o Irã está pagando caro por não seguir as “regras do mundo globalizado”. Minha questão é: esta “opção” do Irã de buscar um lugar só seu no mundo global, diferente dos valores ocidentais, é uma opção do povo ou de um grupo de poderosos que tomaram o poder no Irã? Sei que é difícil avaliar. É como o governo socialista cubano: há quem diga que o regime se mantém por que tem apoio popular e há quem diga que o regime se mantém por que o governo massacra a oposição. E o caso do Irá? O que você acha?
Grande abraço
Fernando (Alagoas/Maceió)
Fernando, não estou tão convencido de que o governo do Irã se opõe à democracia e aos valores ocidentais. O país vive uma constante crise de identidade, refletida em seu nome oficial: República (o que supõe democracia, Estado de direito, modernidade) Islâmica (teocracia). Um dos gritos da Revolução Islâmica de 1979 era justamente: “Nem Oriente, nem Ocidente, República Islâmica”. Me parece que o Irã incomoda o Ocidente por ter interesses estratégicos e econômicos opostos. Religião é do menos, vide Arábia Saudita, ditadura islâmica absoluta que é unha e carne com os EUA. Teerã rejeita a existência de Israel, apoia resistências armadas regionais e gosta de se apresentar como uma nação independente e soberana. Por que o regime se mantém? Vejo várias razões. A primeira é que, sim, ainda há um apoio popular relevante, talvez não pela ideologia em si mas pelo fato de o país ter se desenvolvido muito (antes das atuais sanções) e de ter criado uma rede de amparo social razoavelmente eficiente. A segunda é que, de fato, o Estado é autoritário e forte, e ainda consegue silenciar quem é enxergado como ameaça às suas fundações. A terceira é que no fundo revoluções são processos muito dolorosos e traumáticos, que mergulham países inteiros em caos e incertezas durante anos. O Irã teve uma revolução há 33 anos, é tudo muito recente.
Sugiro q assista
http://radiozamaneh.com/society/humanrights/2012/12/06/22345
Violação dos direitos humanos deve ser o foco principal de conversação com Irã
Este é a exigência de Shirin Ebadi, advogada e ativista de direitos humanos na conferência “Mídia e outras vozes” em Amesterdão, Holanda, em 30 de Novembro.
Ela insistiu a União Europeu para boicotar os satélites do governo iraniano no estrangeiro, referindo-se a corte do satélite da empresa Eutelsat – Fornecedor satélite para Europa – em relação aos canais de televisão por satélite e de rádio via satélite Hotbird do Irã.
Ela ainda afirma “Mas isso não é suficiente e Deve ser banido o uso de outros satélites europeus para o governo iraniano. O governo através dos satélites europeus transmite para seus canais de programação não-Farsi, na Europa, peças de teatro para espalhar o ódio contra os judeus e os Baha’is. E também confissões forçadas de presos políticos são transmitidos por estes canais para a Europa.”
Ela ainda fala de situação drástica da imprensa iraniana, jornalistas, artistas e escritores no Irã e refe à liberdade de expressão como a chave para democracia.
A vídeo de entrevista dela por completa está em baixo do mesmo link em farsi com a tradução simultâneo para inglês.”
E a resposta de pessoal q reclama os porques dos USA não pregam a “liberdade individual dos cidadãos” de países como a Árabia Saudita, Qatar, EAU, Kuwait, Omã, Jordânia, Iraque, Afeganistão e Líbia??
Em alguns destes também pregam sim mas no caso de Irã, são os iranianos fora de país q são muitos também querem sanções e não querem guerra, por isto USA atacou muitos outros rapidamente mas deixa o Irã em banho -maria
O EUA pregam tanta “liberdade individual dos cidadãos” dos seus lacaios árabes que não disse uma palavra criticando o ditador do Qatar por ter sentenciado a prisão pérpetua o poeta Mohamed Ibn al-Dheeb al-Ajami que fez críticas ao ditador e pediu reformas democráticas. Foi condenado sem direito a presença em seu julgamento e sua defesa foi proibida de apresentar seus argumentos. Foi condenado nas acusações de criticar o “Emir”(Ditador) e incitação a revolta(pedir reformas democráticas).
Mas como gritaram com a prisão das baderneiras do Pussy Riot. Obama, Hillary, Ban ki Moon, Bono, Madona criticaram duramente Putin não fizeram um silêncio sepulcral em relação a Mohamed Ibn al-Dheeb al-Ajami.
Os americanos chamam isto de “double standarts”.
Porque os EUA não aplicam sanções a Árabia Saudita, sabidamente o maior financiador do terrorismo internacional???
Porque os EUA não pregam a “liberdade individual dos cidadãos” de países como a Árabia Saudita, Qatar, EAU, Kuwait, Omã, Jordânia, Iraque, Afeganistão e Líbia??
Henry Kissinger defendia o Programa Nuclear Iraniano na época em que o ditador Xá estava no poder. Ele disse “que o programa nuclear iraniano é importante pois aumentará a disponibilidade de energia liberando petróleo para ser transformado em outros produtos petro-químicos beneficiando a economia iraniana”. Depois de disse contrário ao programa porque o Irã não era mais aliado(submisso) dos EUA.
Petróleo, corrupção…muitos dos poderosos desses países deveriam ser presos!
Eles estão fora do Islam! São coniventes com ‘democracias’! O Islam, como caminho, não se coaduna com uma ‘democracia’!
São visões políticas diferentes.Uma coisa que deve nortear a análise de quaisquer governos islâmicos é a aplicação da Sharia!
Se não há Sharia, não há um governo islâmico de fato.
Salaam!
Esse André que comentou tem uma visão mt linear das coisas (país bom VS país mau). Podridão há em todo lado, quem sofre com as sanções são os mais pobres como sempre.
Os americanos e seus capachos judeus querem ver a única potencia emergente no mundo árabe (va lá persa) de joelhos. Os Sírios se acabaram – com o apoio americano/sionista – em um estado morto e fadado à extinção; o Egito encontra-se em estado letárgico com a supremacia da Irmandade Muçulmana. Restava ao Irã ser o condutor do orgulho árabe. Os terroristas de sempre (judeus e americanos) já pediram a cabeça dos iranianos, e em consequência, a primavera do orgulho nacionalista árabe/persa.
Cara, mas que desfile de preconceitos. Ou uma ironia muito mal feita.
A politica americana de embargo econômico se justifica até certo ponto; historicamente os mais fortes tentam impor sua visão aos mais fracos. Isso não mudará, mesmo no futuro, que acredito os EUA não sejam mais a maior potencia mundial ,a que o substituir tentará impor desígnios. Digo que o embargo econômico se justifica em parte, é porque o Irã persegue cidadãos que possuem visões diferentes da imposta pelo regime, o que aconteceu com blogueiro morto é inaceitável, o que o Samy descreveu neste blog é exatamente o que o podre rapaz queria expressar . A dificuldade no dia a dia do povo do seu Pais, neste contexto, acho valida a politica de sanções , visto que os EUA apoiam a liberdade individual dos cidadãos de um modo em geral e o regime de Teerã pensa totalmente diferente.